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22 de mar. de 2013

Se me calo


E de repente eu me calo,
Não faço mais ruídos.
Deixo mais vazio o mundo
Sem meus gestos fluídos,
Sem meu nome...
Sem gemidos.

A única verdade é a morte; Por isso busco
A qualquer sorte a mentira,
Pois viver é bom viver
 _ é a melhor saída _ desde que
Seja mentira bem vivida.

Quem disse que sexo é pecado?
Eu não nasci pelado.
Nasci coberto de amor, e para amar, assessórios.
Seria indelicado fechar os olhos ao Criador
A um item do que sou _ criado.

Pensando bem, o dito nunca se cala
Já que a fala é muda
E a mudez a guarda e consome, sem ruído,
Na fala
Sem um gesto fluido,
Sem nome.

A candura e a ira
De mãos dadas,
A verdade e a mentira abraçadas.
Abraçadas à conduta
_ feito puta _
Indo sempre a lugar nenhum.
Assim é uma vida comum.
Eu quero ser diferente
Eu quero ser gente.
E gente grita;
Não, não sussurra.
Até quando se cala,
Não fala,
Urra.

20 de nov. de 2012

Marketing pessoal

Certos nomes de pessoa são tão simples que não precisam de um sobrenome. São perfeitos por ser simples, ninguém questiona sua origem. Como os frutos dispensam o nome científico: como a maçã, pimenta, tomate, jatobá; Raimundo é assim, apenas Raimundo. Não importa se é Nonato, se da Silva ou 

Kubitschek, sabe-se que é Raimundo brasileiro e isso é tudo. Já se sabe o seu cheiro, cor e sabor. É ninguém.





Isso fazia todo sentido naquele momento. O que diferencia um Raimundo brasileiro do outro é a aparência e o saldo bancário. Ao olhar para certas pessoas comuns nunca se espera uma atitude ou ideia brilhante, um gesto que mereça atenção por acrescentar algo em nossas vidas. Mas se ficar famoso! Quando acontece...
“Peidô”, virou manchete.

Numa terra de Raimundos e Marias, é comum ignorar pensamentos e sugestões julgando-os apenas pela aparência dessas figuras pensantes. Até mesmo uma capacidade comprovada é ignorada. Ignora-lhes também a sensibilidade. Faz-se descaso dos sentimentos que em outros, de características idênticas, exceto a origem e aparência, seriam razões de veneração. Isso confunde o indivíduo quando o destino lhe reserva inesperada boa sorte. O mesmo passa a ser amado e apontado como exemplo de perfeição quando entra para o clube da elite, o hall da fama. O próprio Raimundo então, se não tiver convicção de seus valores e o valor de suas origens, fé, logo se esqueceria de quem é e portar-se-ia como qualquer excentricidade humana, antagônico a si mesmo. Ah, um gringo bereberé. _ Que nome expressivo!
O marketing pessoal é algo bastante complexo, difícil de ser trabalhado. Sua necessidade é incontestável, os resultados efetivos são notórios; porém, as consequências no final às vezes abstrusas. A autopromoção é muito importante para a nossa credibilidade profissional e, sem dúvida, pode ser uma excelente ajuda quando procuramos emprego ou qualquer tipo de relacionamento pela vida afora. Mas isso exige cuidado.
O processo de procurar emprego é parecido com o de divulgação de um produto, deve seguir os mesmos passos de uma campanha de marketing para uma empresa, sendo que o produto em questão, que se está tentando vender, é a sua mão de obra, suas habilidades; e qualquer produto, por melhor que o seja, não fará sucesso se não for convenientemente divulgado aos potenciais clientes. Cada um de nós é uma empresa, é o empreendedor e também o produto. Temos em nós mesmos os três pilares fundamentais de sustentação: a missão, a visão e os valores.
Um bom marketing pessoal nos garante vantagem sobre os outros candidatos num processo seletivo e nos torna referência. Mas isso não é tudo. O homem pode ser medido e avaliado por sua capacidade de se autopromover? Sim, dependendo do olhar de quem o fiscaliza. Se aquele que o investiga procura apenas o que a propaganda dispõe em destaque...
Tem gente que só enxerga o óbvio; sendo assim, não importa se o que se tem é apenas a embalagem do homem. Mas e quanto a você que não é apenas uma embalagem oca? Você que tem seus princípios, defende suas crenças, seu passado, suas dúvidas? Você tem recheios. De repente esses recheios ofuscados pelo brilho de sua embalagem é a sua essência de vida. Há aqueles que vendem a alma por uma posição; e há aqueles que morrem, mas não vendem a alma em nenhuma ocasião. _ Eis uma razão para análise.
É importante saber para onde deseja projetar seu marketing pessoal. É fundamental escolher o alvo para o qual deseja atrair, imprimir seu slogan e fixar seu jingle. Escolher, portanto, o tipo de empresa para lhes oferecer-nos, nós produtos. E sempre ter em mente que para a empresa, nós funcionários, somos apenas um número. Um produto identificado.

26 de set. de 2012

Atitude do amor

O amor rói,
Sem nenhum pudor,
Todo pudor que o homem constrói;
Depois,
Destrói e reconstrói,
Com todo pudor,
O amor.

24 de set. de 2012

Diz que diz que abstrato


Nada é eterno
eterno e absoluto...
Exceto o homem na sua singularidade;
por isso a nada me apego,
a não ser que me fortaleça meu ego
e aumente meu "abstratismo",
a tudo renego, porque sou homem,
sou único e eterno,
exceto pela minha singularidade, comum,
a que me apego.

Eterno, etéreo e absoluto;
nada que me pluralize,
nenhum rastro de luto.
Ademais, nenhum "ismo" a mais no meu ocultismo.
Só o absurdo.

Fim de feira



Domingo, fim de feira

A rua ao término da feira, leva um tempo para os nossos olhos se adaptarem à sua normalidade. Depois de varrida a última folha, até a limpeza parece estranha; falta naturalidade _ originalidade _, mas o cheiro recendente nos leva os sentidos a doce exuberância do pomar de lembranças.

Logo a paisagem vai se renovando: A última barraca desmontada, crianças, brincadeiras, jovens, vozes, gritos, meninas, moças, senhoras, gestantes, homens, carros, postes, fios, pássaros, pombos,... Pombos? Pombos já não são pássaros, são bichos comendo detritos de bichos e cagando infecção! Cães...
e os telhados que espiavam o movimento por sobre a lona das barracas exibem novamente suas estruturas, a área, o jardim;
E a morena bonita cantarolando, arrumando os cabelos, vê
 O gato na janela assobiando Jobim.

É bom o cheiro de feijão refogado.
A imagem na tv é a mesma da semana passada
A linguagem do outro século, exacerbadamente vulgar;
_ Perdão! Podem buzinar._
A linguagem é a de sempre: Vômito, podridão...
“Quem não se comunica se se trumbica”.
Que saudade da comunicação!


É domingo, os homens jogam e bebem.
Os bares estão cheios.
Quanto será que custa uma cerveja?
Rabo de galo dá dor de cabeça; e uma ressaca!
Pensar em conhaque me causa repulsa, e arrepio, dor de cabeça...
Pior que cachaça.

Puxa! Como tem mulheres alcoólatras e fumantes hoje em dia!
O preço do abacaxi tá um absurdo! É de morte!
E o pepino então!...
E o sexo?
E o coquetel? Mas os postos dão camisinha!
É melhor ser autólatra que alcoólatra?

Tudo custa.

Tudo embriaga. Tudo é vício, tudo vicia!
Até a rua
A noite
A poesia
A lua
A sarjeta
O abraço, o beijo
Os seios, o amasso, a... também vicia.
A dor
O remédio.
A solidão;...a procura.
Há cura!

Falo pelos cotovelos, sou um pentelho.
Nunca serei um busto.
Espelho.

Nunca serei um busto
Um monumento
Onde os pombos trepem
E se lubrifiquem se amando...
Cagando os detritos dos dejetos
Dos projetos dos homens: Nós, de salto alto,
O movimento,
Vivos, vistos do alto.

Nunca serei história
Também história nenhuma fiz nem farei.
Não sou história
Não nasci pra Colombo.
Não canto
Não conto
Não sou conto
Nem santo
Talvez pombo.

Nesse tempo, _ Tempo das águas _
Logo após a estiagem da tão esperada primeira chuva, o sol, lembra-me um velho e nossa primavera. Eu já o conheci cheio de rugas e grisalho, _ juro! _ a dançar entre as covas, semeando grãos, com amor e fé, e espalhando com os pés a terra para cobrir a esperança do futuro;
O suor escorrendo em seu rosto como água no leito de um sinuoso rio.
E seus cabelos pretos, entremeados de fios bancos sob o chapéu de feltro, reluzindo como orvalhos à sombra tocados pelos raios do sol da manhã. Ao meio dia, ave Maria!...
Água fresca e um assobio.

Sabedoria e humildade andavam de braços dados rezando, cantando e dançando, e compondo os novos passos para os jovens, e ainda imaturos, semeadores de esperanças.
Há vidas, há momentos, e há fatos que compõem nossas lembranças que são mais que perfeita poesia. É uma oração; é profecia. Um diálogo direto com Deus numa linguagem de semelhança de sentidos.

Tudo que Deus criou tem sua utilidade. E ser útil é o fundamento de toda criatura, portanto tornar-se útil, sentir-se útil é fundamental para se sentir ser vivo.

Não compreendemos os insetos, a razão de suas existências, mas eles cumprem seus compromissos para com a vida. Como as formigas, as abelhas, ainda são espelhos para o homem.
Tudo que Deus criou tem sua serventia, inclusive o homem. E é preciso viver dentro do limite da sua precisão. Nem mais nem menos.

Ele, meu velho, dizia coisas assim, enquanto dançava esmagando os torrões úmidos, esparramando a terra sobre as sementes escolhidas para plantio.
A fé sempre florescia primeira mesmo no estio.

Dele não se fez notícias
Não se fez nenhuma ode
Nenhuma epopeia.
Ele apenas cumpriu seu destino,
Nem mais nem menos. Sempre fora ele mesmo, o que era.
Fez-se o bastante no extremo da necessidade.

Mas eu tenho dele um retrato,
O seu autorretrato,
E como pano de fundo eu vejo o céu
Estampado mulher ostentando-o nas nuvens, sua esposa;
Minha mãe.

Domingo, fim de feira, bom vadiar assim, pensando, sem eira nem beira.

22 de set. de 2012

Sobre a vida


O novo chocolate, à primeira mordida, tem um gosto amargo...
_ chega ser frustrante.
Depois que o degustamos ­_ humm!
É um verdadeiro encanto.

Na vida precisamos ter paciência.

A vitória exige paciência
O sucesso exige paciência
Um projeto exige paciência
A felicidade tem suas origens na paciência.
A própria paciência exige confiança e paciência, porquanto,
A paciência é um pacote dinâmico de artifícios com vários atributos.

O gosto final da nossa peleja, vida a fora, também depende do que extraímos desse pacote dinâmico, passo a passo.
Porque o destino se forma laço a laço.
Pra onde quer que se vá vai-se passo a passo, não importa o caminho.

O homem andava pela rua, sob a garoa paulistana, quando um carro do ano, blindado e vidro fumê, passa numa poça d’água próxima à calçada e lança aquela onda nos pedestres.  O transeunte gesticula, xinga, solta palavrões, e segue; mas já envergonhado e arrependido pelo seu comportamento.

Minutos depois entra na farmácia do shopping e alguém lança sobre ele um olhar fulminante. O homem estremece. Amor à primeira vista? Ele é tímido, mas é um tímido que tem atitude.

Durante o café os dois falam de cinema, música e literatura, o que os leva por ideias excêntricas a discutir as estranhezas de certos dias. Por fim ele fala do banho que levara na calçada. Ela, diante tal narrativa se identifica e se revela provável réu confesso. E eles riem muito e ao final do encontro descobrem que ambos têm "pegada"...

Passado certo tempo, os amigos em comum, que tanto admiram o relacionamento invejável daquela família de respeito e romantismo, pergunta-lhes qual é o segredo e como se conheceram: 
“Paciência; paciência e bom humor”, eles dizem.